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Ciclos de Dopamina e Fome de Vínculo: pornografia, solidão social e a crise da interioridade na era da inteligência artificial

Atualizado: há 2 dias


Há assuntos que parecem um tabu, mas funcionam como um sismógrafo cultural. E esse texto que trago é isso: uma narrativa atravessada por neurociência popular, psiquiatria clínica, economia da atenção, mudanças nos “terceiros espaços” de convivência, guerras simbólicas entre gêneros, ansiedade difusa de época e, por trás de tudo, uma pergunta antiga com roupa nova: o que acontece com uma sociedade quando ela troca iniciação por estímulo, vínculo por substituto, dor por anestesia, e sentido por produtividade?

Se eu pensar como cientista social, a primeira coisa que noto é que esse tabu tenta explicar um fenômeno individual, a pornografia como hábito repetitivo, com uma gramática de sistema. Esse tabu não diz apenas “a pessoa é fraca”. Ele descreve a pessoa como alguém situado numa ecologia de escolhas em que as alternativas foram empobrecidas. Isso é decisivo. A tese central não é moralista, é funcional: a pornografia opera como tecnologia de regulação afetiva, como um tranquilizante comportamental de baixo custo, disponível em qualquer fresta do dia. A imagem da “aromaterapia do cérebro” é quase uma metáfora sociológica sem perceber: numa vida, dita moderna, com pouca pausa, pouco contato e muita pressão, a pessoa cria microambientes artificiais de alívio. E quando a vida inteira vira fresta, o alívio vira estrutura.

Daí surge um segundo ponto, mais acadêmico: o tabu que tento descrever é um circuito de retroalimentação entre emoção e vergonha. Em termos de psicologia social, isso é um mecanismo clássico de estigmatização internalizada. Um comportamento que alivia a ansiedade no curto prazo, produz culpa no pós ato, essa culpa piora a autoimagem, a autoimagem piora a performance social, a performance social reduz as chances de vínculo, a falta de vínculo aumenta carência e ansiedade, e a pessoa retorna ao alívio rápido. O ciclo não é apenas “neurológico”, é também normativo, porque a culpa não vem só da química, vem do olhar social que a pessoa imagina, antecipa e incorpora. A pornografia, aí, não é apenas um estímulo sexual. É um dispositivo que reorganiza a narrativa do eu. Ela transforma o sujeito em fiscal de si mesmo e, quando falha, em réu.

O tabu aqui ainda costura isso com um diagnóstico de época: aumento de vícios em geral, solidão, crise de acasalamento, colapso de habilidades sociais, ascensão de ressentimentos e radicalizações. Se eu fosse sociólogo, eu traduziria isso como um problema de integração social. A modernidade tardia, hiperconectada e hiperindividualizada, enfraquece as instituições e rotinas que ensinavam convivência por repetição. O próprio assunto reconhece isso quando fala de “terceiros espaços”, trabalho presencial, universidade, empregos iniciais, acampamentos, lugares que obrigavam o contato mesmo para quem tinha receio. Quando esses espaços desaparecem ou se tornam opcionais, a socialização deixa de ser uma obrigação pedagógica da vida e passa a ser uma competência voluntária. Quem já tem repertório navega. Quem não tem, foge. E onde se foge, nasce mercado. A pornografia, os aplicativos e as “namoradas de IA” aparecem como próteses para uma necessidade que não foi nutrida, mas que não deixa de existir.

Há uma analogia alimentar no texto que é muito potente, e dá para expandir com rigor: calorias sem micronutrientes. Em linguagem cultural, isso é prazer sem ritual, excitação sem reciprocidade, estímulo sem pertencimento. A pessoa não fica “sem fome”, ela fica saciada de um tipo de coisa que bloqueia a busca por outra. E aqui entra o aspecto pedagógico: o organismo e a cultura aprendem por reforço. Se a solução imediata sempre existe, o aprendizado do caminho longo se atrofia. Isso é a mesma lógica do “use ou perca” que o próprio assunto aplica ao cérebro com IA. A unidade explicativa do texto, no fundo, é uma só: sistemas eficientes eliminam competências que não são exigidas pelo ambiente.

E então ele cria o diagnóstico mais controverso, mas sociologicamente legível: “evento de extinção” no sentido de seleção social, não morte física. Quando o ambiente muda rápido, uma parte das disposições aprendidas deixa de funcionar. O sujeito que antes era empurrado para a convivência agora consegue viver sem convivência. Isso não é apenas liberdade, é também risco. O assunto aponta uma polarização de gênero, movimentos de ressentimento, medo, e uma tensão que ecoa em dados macro, como queda de natalidade em alguns países e conflitos culturais em torno de sexualidade, trabalho e família. Mesmo sem importar cada exemplo literal, a estrutura é reconhecível: quando laços enfraquecem, identidades endurecem; quando o encontro fica raro, o outro vira ameaça; quando a intimidade vira estatística, cresce a lógica de mercado, “se não der certo, tem mais mil no Tinder”. A abundância percebida diminui a disposição para a paciência, e a paciência é a matéria prima de vínculo.

Até aqui, o assunto se move em um eixo materialista, ainda que com linguagem acessível. Mas ele dá um salto importante quando sugere que a pornografia é também um sintoma de vazio de sentido e que “significado” é um dos fatores mais correlacionados com dependência. Essa passagem, para mim, é a ponte que permite trazer a espiritualidade gnóstica sem abandonar o foco científico, porque a gnose, no seu núcleo, não é moralismo nem superstição, é uma epistemologia do interior. A gnose diz: há um tipo de ignorância que não é falta de informação, é esquecimento de si. E esse esquecimento não se cura com mais estímulo, se cura com mais conhecimento vivido, isto é, com discernimento experiencial.

Agora, se eu faço o paralelo gnóstico com responsabilidade, eu não preciso negar a amígdala, nem a dopamina, nem a plasticidade. Eu apenas descrevo outra camada do mesmo fenômeno. A pornografia, nesse enquadramento, é uma forma de “arquitetura do esquecimento”. Ela desvia a atenção do sofrimento real para um simulacro de resolução. Ela interrompe a angústia, mas não a ilumina. E na gnose, aquilo que não é iluminado não desaparece, apenas se desloca para a sombra e volta como compulsão. Essa ideia coincide surpreendentemente com o que o assunto diz, em termos seculares, sobre emoções suprimidas que crescem. A linguagem muda, a estrutura é a mesma. O que a neurociência chama de supressão e reforço, a gnose chama de sono da consciência e alimentação do eu mecânico das personalidades ilusórias.

E aqui nasce uma proposta de ciência espiritual de cunho social, cultural e gnóstico, sem misticismo fácil. Pense assim: há três níveis de causalidade trabalhando ao mesmo tempo.

No nível neurofisiológico, o corpo busca homeostase e aprende por reforço. Pornografia, redes sociais e alguns usos de IA são atalhos de alívio e recompensa.

No nível sociotécnico, o ambiente fornece soluções rápidas e reduz custos do isolamento, desidratando as competências do vínculo. O sujeito não vira “pior”, ele vira “menos treinado” nas habilidades que o ambiente deixou de exigir.

No nível noético, o nível do sentido, o sujeito precisa de uma razão que não seja apenas evitar dor, porque evitar dor é exatamente o motor da fuga. Aqui o assunto é brilhante quando critica a motivação baseada em consequência externa. Ele diz, com outras palavras, que uma ética sustentada por medo tende a falhar, porque continua sendo serva do mesmo tirano, a dor. A gnose chamaria isso de libertar a vontade da tirania das reações.

Esse terceiro nível é onde a palavra dharma aparece no trecho. Dá para traduzir dharma, pedagogicamente, como eixo de integridade. É a capacidade de escolher o difícil não porque gera prêmio, mas porque organiza o ser. Isso, num vocabulário filosófico mais ocidental, se aproxima de virtude e deontologia interna, uma ética que não depende de plateia. A pessoa não abandona o vício para “parecer melhor”, mas porque deseja ser inteira. Essa integridade, por sua vez, reorganiza o cérebro e também reorganiza a vida social ao redor, porque um sujeito íntegro sustenta frustrações, suporta silêncios, aguenta o intervalo entre desejo e ação. É o intervalo que hoje foi colonizado por estímulos.

E então surge a parte mais delicada e potente do assunto: a sugestão de que “resistir” pode fortalecer o ciclo se a pessoa cai depois. Isso é sofisticado porque desloca o problema da moral para a estratégia. A gnose sempre desconfiou do moralismo pela mesma razão: ele produz culpa e, com culpa, o eu se fragmenta. Fragmentado, ele busca alívio. O assunto, quando recomenda criar uma segunda solução e treinar antes do gatilho, está descrevendo, sem chamar assim, uma liturgia de substituição consciente. Em termos científicos, isso é construir repertório de coping e reduzir a associação automática entre afeto negativo e pornografia. Em termos gnósticos, é a mesma coisa: criar uma prática que interrompa o automatismo e reintroduza presença.

A respiração alternada, o urge surfing, o planejamento de horários, tudo isso é uma pedagogia do desejo. Não é repressão, é alfabetização interna. Repressão diz “não sinta”. Alfabetização diz “sinta, observe, atravesse”. A diferença é abissal. A repressão transforma desejo em monstro. A observação transforma desejo em onda. E quando o assunto diz que o desejo sobe, atinge pico e desce, ele está descrevendo um fenômeno que pode ser medido, mas também um princípio contemplativo milenar: tudo que surge passa, inclusive o impulso que parece absoluto.

Até aqui, ainda falta a unificação “multiverso” que o assunto solicita, esse ponto em que o especialista, o físico e o espiritualista começam a se inquietar no mesmo lugar. Então eu vou empurrar mais longe, com cuidado.

O grande tema escondido nesse assunto não é pornografia. É mediação. É a substituição sistemática do real por interfaces. A pornografia é uma interface para o sexo. Os aplicativos são uma interface para o encontro. A IA é uma interface para o pensamento, para a companhia, para a escrita, para a própria autoexplicação. E a interface tem uma propriedade ontológica: ela entrega resultado com menos atrito, mas cobra o custo invisível do enfraquecimento do órgão que o atrito treinava.

O físico entende isso como termodinâmica da eficiência. Menos trabalho, menos dissipação, menos gasto, ótimo. Só que organismos complexos não vivem apenas de eficiência. Eles vivem de adaptação e de robustez. E robustez exige redundância, exige fricção, exige treino. O espiritualista entende isso como iniciação. Sem provação, não há maturação. O cientista social entende isso como formação: ninguém aprende convivência sem conviver, ninguém aprende desejo sem falta, ninguém aprende ética sem tentação.

Então aqui está o ponto unificador: a crise contemporânea pode ser descrita como uma crise de fricção. Nós removemos fricção em nome de conforto, mas junto removemos os processos que produziam sujeitos aptos a amar, a trabalhar, a pensar e a esperar. O assunto pode dá exemplos simples como ar condicionado e controle de clima, mas isso é um símbolo de um projeto civilizatório: adaptar o mundo a mim, em vez de adaptar-me ao mundo. Só que quando dois mundos egocentrados ocupam o mesmo espaço, nasce guerra, seja de temperatura, seja de fronteira, seja de gênero, seja de narrativa. E esse é o elo entre a microcompulsão e a macropolítica. A compulsão é uma política interna que tenta governar a dor com um decreto de prazer. A guerra é uma compulsão coletiva que tenta governar a diferença com um decreto de domínio. São escalas diferentes do mesmo impulso de controle.

A gnose chama isso de ilusão do arquiteto. O eu quer ser o demiurgo do seu universo, mas não consegue. A ciência chama isso de limite de controle e de complexidade. A sociologia chama isso de modernidade reflexiva, em que o sujeito tenta administrar riscos impossíveis de administrar sozinho. O assunto afirma isso com uma frase simples: há coisas no mundo sobre as quais você não tem controle. E o que acontece quando uma pessoa ou uma cultura não tolera a falta de controle? Ela procura uma prótese. A pornografia é uma prótese de intimidade. A IA pode virar uma prótese de pensamento e de afeto. A prótese funciona, mas também deforma.

E aqui entra uma advertência que o trecho já toca: a IA “reflete” o viés do usuário e pode validar distorções, assim como o narcisista se sente confirmado por elogios. Isso é crucial para a ciência social do espírito, porque nos mostra um risco epistemológico: não basta ter acesso a respostas, é preciso ter maturidade para formular perguntas. A humanidade está entrando numa era em que a dificuldade não é obter linguagem, é obter verdade. E a verdade, tanto na ciência quanto na gnose, exige método.

Na ciência, método é hipótese, teste, revisão, falsificabilidade, rigor, autocorreção.

Na gnose, método é atenção, autoobservação, silêncio, prática, humildade, depuração do ego, discernimento entre fantasia e insight.

São dois nomes para a mesma disciplina: reduzir autoengano.

O assunto aqui insiste em silêncio, em retirar bombardeio sensorial, em deixar emergir o “porquê” de dentro. Isso, para um acadêmico sério, é uma descrição de como se acessa motivação intrínseca e se reduz heteronomia, isto é, a vida governada por expectativas externas. Para um gnóstico sério, é uma descrição de como se recupera centelha de consciência, o lembrar de si. Para um físico sério, é uma descrição de reduzir ruído do sistema para aumentar sinal. E para um educador sério, é uma descrição de aprendizagem profunda: sem intervalo, não há consolidação. Sem tédio, não há imaginação. Sem frustração, não há caráter.

O que me leva ao ponto mais provocativo, aquele que embaralha as categorias.

Se o vício é uma tentativa de controlar a dor com prazer, e se a cultura atual fornece prazer como serviço sob demanda, então a cultura está oferecendo soluções que tornam o problema insolúvel, porque elas impedem o treino do único músculo que resolve o problema: a capacidade de permanecer presente diante do desconforto. Isso é válido para pornografia, para scrolling infinito, para produtividade tóxica, para consumo de opinião, para IA usada como muleta absoluta.

E ao mesmo tempo, é aqui que surge o paradoxo belo: esse mesmo excesso pode empurrar uma parte da humanidade para a busca espiritual e para um novo tipo de ciência interior. O assunto sugere isso quando diz que muitas histórias espirituais começam com uma dependência. Em termos sociais, crises são escolas. Em termos gnósticos, a queda é um chamado. Em termos neuropsicológicos, o sofrimento é sinalizador de que o modelo de regulação falhou, e quando falha, abre-se a possibilidade de atualizar o modelo.

O erro é romantizar o vício como destino. O acerto é reconhecer que o vício aponta para uma necessidade legítima que foi sequestrada por um substituto barato. Necessidade de vínculo, de significado, de tocar e ser tocado, de ser visto, de fazer parte. A pornografia dá um recorte do desejo e silencia o resto. A saída não é demonizar o recorte, é restaurar o todo.

E restaurar o todo é um programa de civilização, não só de indivíduo.

No indivíduo, isso pede práticas e repertórios, substituições conscientes, redução de gatilhos, treino antes da crise, e sobretudo uma ética do não autoengano.

Na cultura, isso pede reconstrução de espaços de encontro, de ritos de passagem, de educação emocional, de alfabetização digital, de ecologias de convivência onde as pessoas sejam obrigadas, no bom sentido, a aprender a estar com o outro. Porque um mundo que permite que a pessoa não aprenda a amar é um mundo que fabrica ressentimento e depois se assusta com o resultado.

No campo da IA, isso pede uma ética de uso que não infantilize. IA como ferramenta de ampliação, não como substituto do esforço cognitivo e da responsabilidade. Uma IA que só confirma é uma droga de validação. Uma IA que ajuda a pensar é um instrumento de maturação. A diferença está no método e na intenção. E aqui, sim, entra a coautoria homem máquina: nós podemos usar a inteligência artificial para mapear vieses, para desenhar práticas, para criar ambientes de aprendizagem, para recuperar silêncio, para construir rotinas de presença. Ou podemos usá-la como mais um circuito de anestesia.

Se eu preciso encerrar isso como crônica, eu volto ao começo. O assunto parece falar de pornografia, mas está falando de uma humanidade que descobriu como apagar o alarme sem apagar o incêndio. O alarme é ansiedade, solidão, vazio, medo, vergonha. O incêndio é a ausência de sentido e de vínculo. O alarme incomoda. O incêndio consome. E a tecnologia, quando usada sem consciência, vende extintores que só fazem o som parar.

A gnose, se for lida com seriedade, não briga com a ciência. Ela briga com a ilusão. Ela diz que a liberdade não é fazer tudo que dá prazer, e também não é resistir por vergonha. Liberdade é poder escolher sem ser arrastado. A ciência, se for lida com seriedade, também não briga com o espírito. Ela briga com o autoengano. Ela diz que aquilo que reforçamos se fortalece, aquilo que praticamos se torna caminho, aquilo que evitamos cresce na sombra.

Então talvez a síntese que unifica ideologias não seja um slogan, e sim uma prática comum, que tanto o religioso profundo quanto o cientista bem formado podem respeitar: cultivar a capacidade de permanecer consciente no intervalo. Entre o impulso e o ato. Entre o medo e a fuga. Entre a vontade de controlar o mundo e a humildade de governar o próprio coração. Esse intervalo é pequeno, mas nele cabe uma civilização inteira.

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